A história dos ateliers de Alta-Costura e dos artesãos, que criam à mão maravilhosas e trabalhosas coleções de peças...
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Ver com as mãos
Quando era pequenina e via os estilistas a acenar no fim dos seus desfiles, imaginava que faziam tudo – e só isso parecia-me mágico! Mas a magia de cada coleção é feita por muitas mãos, como sábias formiguinhas de tecido.
A expressão Alta-Costura pode, só em si, remeter-nos para vários mundos – a grandeza da arte feita à mão, o seu exagero ou estranheza, a inovação irreconhecível que nos faz pensar “o que é isto?”. Reconhecemos as horas intermináveis de puro artesanato, o sonho de poder usar aquele modelo, entre tantas outras sensações.
Poderia tentar justificar essa estranheza, esse choque que por vezes nos causa, ao escrever sobre como a arte pode, por vezes, superar aquilo que é útil. Que a sua função acaba por ser essa imaginação desmedida. Mas confesso que, acima de tudo, justifico a Alta-Costura com razões simplesmente prazerosas – adoro o papel do quase-ridículo a que a moda, enquanto arte, se permite.
Adoro quando a moda é um sonhador otimista sem medos! O experimental, a peça que é só para ver e dizer “uau!” ou “hmm?” ou “uhh...”, o convite a uma peça feia que se diverte a sê-lo, a tradução performativa da história ou de uma história, a coragem de ser fábula em tecido. Algo que não precisa de ser útil para encantar.
Numa arte que não é só decorativa mas também funcional, quantas vezes nos é apenas “roupa” e não “moda”, torna-se mais fácil essa expectativa de que todo o tecido se apresente óbvio, acessível, com sentido claro.
A moda não é mais artística por ser inalcançável – por vezes, esse é só um efeito secundário de cortar o que nos é quotidiano com uma imaginação que nos pode parecer um desperdício de utilidade. Mas enquanto arte, continua a comprometer-se a sair das linhas quando nos traz algo que nos faz suspirar, estranhar, perguntar como se faz, pensar que nunca existiria algo assim, confrontar o excecional.
Não é apenas na Alta-Costura que esse ‘sair-das-linhas’ é possível. Mas, na verdade, foi neste ‘cantinho’ da moda que se possibilitou esse espaço de absoluta liberdade, sem restrições, com um enorme investimento de tempo, técnica, mas sobretudo, Amor. Esse ‘cantinho’ são os ateliers!
Os ateliers são a espinha dorsal das casas de Alta-Costura mais conceituadas. A primeira terá surgido em 1898, quando Charles Frederick Worth, um alfaiate inglês, se aventurou quer a desenhar, quer a costurar as peças luxuosas que idealizava. Nessa altura, embora as peças fossem feitas à mão e à medida de cada cliente, era incomum incluir também a parte de design e criação artística.
Nasceu, assim, a primeira definição de designer de moda e de casa de Alta-Costura. E cerca de meio século depois, em 1945, a Fédération de la Haute Couture et de la Mode definiu os critérios incontornáveis do estatuto Alta-Costura, presentes até hoje – incluindo, por exemplo, que cada atelier deve contar no mínimo com 20 artesãos e apresentar no mínimo 35 peças por coleção.
É nestes ateliers que está a energia invisível desta arte. Dezenas e até centenas de artesãos trabalham durante meses para preparar peças para os desfiles, testar conceitos e experimentar materiais. Nas Maisons D'art – “casas de arte”, como são conhecidos os ateliers – trabalham autênticos virtuosos: malta exímia que borda, cria plumas, faz joias, ourivesaria, chapéus, sapatos, luvas.
Cose lantejoulas uma a uma. Faz botões à medida de cada peça. Entrelaça lã que se torna num tecido recém-nascido. Manuseia os tecidos e as missangas em frequências que dão um som característico àquele lugar.
O conhecimento artesanal e a curiosidade pelos materiais são imprescindíveis para criar novas arquiteturas, sustentadas por pormenores, e inovar a cada coleção. Conseguir reunir estas técnicas, que tornam desenhos em papel realidade, é fora de série.
Por isso, na segunda parte deste blog, trazemos uma coleção de visitas a vários ateliers de Alta-Costura, para espreitarem um bocadinho como tudo se faz.
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