5 curtas visitas a vários ateliers de Alta-Costura, com os nossos apontamentos mais curiosos. Desfrutem destes...
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Uma conversa com Bárbara Coutinho, Diretora do MUDE - Museu do Design (parte 1)
De um lado, ouve-se Lena d’Água. Do outro, Simone d’Oliveira. Pelo meio, as Doce e o Variações. E por entre eles, vai escapando uma música cantada por senhoras – confesso não a reconhecer, mas sente-se bem portuguesa. Imagino-as juntas a fazer algo à mão, cantando num coro prazerosamente desalinhado e sem treino, próprio de quem o faz como ritual para si e não como performance para outros.
Na exposição Portugal Pop. A Moda em Português. 1970 - 2020, faz-se uma pergunta semelhante. Se existe uma moda portuguesa, e de que rituais, tradições e lugares é feita. Esses rituais caseiros, de quem se senta a fazer com as mãos e com os materiais que tem ao seu alcance, para dar resposta a uma necessidade e expressividade próprias. E como se convidam esses rituais a fazer parte das estruturas que, talvez teimosamente, reservamos para a arte, moda, cultura. Ou melhor ainda, como se desfaz essa divisão por completo.
Esta pergunta sobre a identidade da moda portuguesa foi o ponto de partida desta exposição, que pudemos conhecer numa conversa com a Diretora Artística do MUDE – Museu do Design, Bárbara Coutinho.
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Sem linhas nem costuras
Ao juntar designers, lugares, e técnicas, esta exposição desfaz uma certa geografia da arte e do design – uma geografia que interiorizámos, onde a arte e o design parecem só existir nos lugares onde imaginamos um letreiro neon, que nos lembra de prestar atenção. Passarelas, museus, teatros, pinturas emolduradas numa galeria, lugares quase etiquetados com “aqui há arte”. E oficinas, carpintarias, a sala de estar, o café da rua, a mesa dos avós?
Pensar na “obra dos designers de moda, no sentido de refletir sobre dicotomias e conceitos formatados, é um pouco redutor. Tradição versus moderno, rural versus urbano, único versus múltiplo.”, reflete Bárbara. Conta-nos que a distinção entre áreas faz minguar, porque tudo passa pelo “desenho, pensamento, concepção de como olhar para o real, e o reconhecimento de elementos sobre os quais trabalhamos”.
Falamos ainda brevemente sobre Sarah Affonso, uma artista-artesã-mil-ofícios que também desfez essa geografia, porque não teve receio de “esbater as fronteiras que se encontram quando se sabe olhar”.
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O olhar fresco que (se) transforma
A exposição mostra-nos ainda a energia e vontade das novas gerações, que estão a “re-olhar o folclore, a cultura vernacular com relações entre si, à luz dos novos problemas da sociedade, e da vivência democrática.” Não vêm só pedir emprestado, mas também enriquecem essa fonte de conhecimento artesanal e o saber-fazer. Como resume Bárbara, “o artesanato não é estanque. O artesão é historicamente um transformador de algo. O património é vivo.”
A cultura vernacular, que inclui o artesanato, tem os braços abertos, o café a fazer, e a lareira pronta. Quer conversar sobre coisas boas, ser sala-de-estar, ser o espaço comum que se oferece no quentinho do caseiro. Para Bárbara, é “fonte de inspiração, aprendizagem, recriação, riqueza, a forma como fomos encontrando respostas às necessidades. Parte de uma ideia, de experimentação, de técnicas económicas e ecológicas, e de conhecimento dos materiais. E reside nas pessoas – que retêm o saber-fazer e curiosidade para transformar o lugar onde se encontram.”
(Continuamos na segunda parte deste blog, que sai na próxima quinta-feira.)
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Imagem de capa por Bordado da Madeira.
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