5 curtas visitas a vários ateliers de Alta-Costura, com os nossos apontamentos mais curiosos. Desfrutem destes...
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Um pouquinho mais: conversa com Bárbara Coutinho, Diretora do MUDE - Museu do Design (parte 2)
Continuamos o nosso encontro com Bárbara Coutinho, Diretora & Curadora do MUDE - Museu do Design. Primeira parte, aqui.
Saber-fazer também é riqueza
Nessa transformação, há uma outra riqueza – a social. Porque é nela que se traduz a “relação e colaboração intergeracional entre o saber-fazer e projetar com intencionalidade”, diz-nos Bárbara. Muitas influências dos designers de moda são cruzamentos, que chegam até à moda pela linha das mulheres. Há constantes “referências às avós, mães e tias. O homem estava na guerra colonial, ou no campo durante o dia – mas a mulher era essencial na economia familiar e na passagem da cultura.”
Guarda-se no design a influência da natureza e dos hábitos de cada região. E há uma enorme riqueza nesse conhecimento, não só porque permite criação, mas porque é feito ele próprio de “práticas tradicionais como formas mais harmoniosas, sustentáveis, ecológicas.”
A Bárbara recorda-nos dos alicerces da sustentabilidade: “não é só económica, é também ambiental, social e cultural.” Sobre o folclore como sendo “um fechamento, um olhar externo do que é regional”, torna-se importante reconhecer esses pedacinhos também como economias locais. É através da inovação, da ciência por nomear, do conhecimento técnico que se transfere como património imaterial, da harmonia com o mundo natural, que acontece neste folclore uma sustentabilidade plena na sua conceção.
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A tecnologia ancestral
Bárbara conta-nos a frase de António Sena da Silva, Presidente do Centro Português de Design: “O Homo sapiens é um Homo designer.” Ou seja, desde sempre e em todos os lugares, criamos soluções para o que está à nossa volta, com o que está à nossa volta.
O exemplo mais bonito desta conversa foi a do cocho, uma colher em cortiça alentejana. A resposta perfeita a algo que fazia falta, a partir do que estava pertinho, abundante, disponível. Tem uma forma ergonómica, é um material acessível e ecológico, mantem a qualidade da água que com ele se vai beber. Um design que dá uma resposta dentro do equilíbrio do mundo vivo à sua volta. Limitado e possível em igual forma pelo seu redor - só havia cortiça, aquela forma, aquele lugar ou só poderia ter sido cortiça, aquela forma, aquele lugar?
Na moda, Helena Cardoso acolhe também esse equilíbrio e a coragem de cuidar – usa as cores naturais da lã para evitar o tingimento, que é em si um processo muito poluente, e acrescenta motivos naturais. Na exposição, é-lhe dedicado um expositor, com várias amostras da sua tecelagem, cada uma com a mesma poesia de um quadro.
No seu processo de criação e procura de utilidade, estas respostas feitas à mão são também tecnologias. Enquanto soluções ancestrais, recursos para o presente, e imaginação para o futuro. Como diz Bárbara, são a riqueza do contemporâneo como soma do “agora, do passado, do que conhecemos e do que trazemos, e da projeção que fazemos do futuro.”-
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(Continuamos na terceira e última parte, na próxima quinta-feira.)
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Imagem de capa por Teresa Teixeira, de uma peça de Helena Cardoso.
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