5 curtas visitas a vários ateliers de Alta-Costura, com os nossos apontamentos mais curiosos. Desfrutem destes...
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Por fim: conversa com Bárbara Coutinho, Diretora do MUDE - Museu do Design (parte 3)
Última parte do nosso encontro com Bárbara Coutinho, Diretora & Curadora do MUDE - Museu do Design. Primeira parte aqui, e segunda aqui.
O tecido da moda portuguesa
Na exposição, juntam-se a memória coletiva, a experiência de cada designer nas suas referências, e ainda a ecologia trazida pelos lugares, matérias e saberes. Daí nascem, ponto a ponto, formas de pensar sobre a cultura da moda portuguesa. Incluindo a sua fluidez, vinda da experimentação e de um saber-fazer vivo, que satisfaz novas curiosidades e formas de criar.
Surgem alguns exemplos dessa frescura inevitável. Vanessa Barragão, que recentemente apresentou a sua exposição Mergulho. As Paisagens de Vanessa Barragão no Centro Comercial Colombo, rejeitou a moda e recupera agora pontos tradicionais com restos de tecido. No resumo de Bárbara, “um saber-fazer muito rico permite a criação.”
Maria Thereza Mimoso, a primeira designer de moda portuguesa a apresentar uma coleção em Paris, em 1973. Maria Thereza Mimoso, que tantas vezes vestiu Amália.
Amália, “a primeira estrela pop portuguesa”, que também recriou na sua estranha forma de vestir – estranha por lhe ser tão própria, tão reconhecivelmente Amália - as capas de Coimbra e os vestidos de noiva minhotos. Oferecem-lhe a sua escuridão integral, e Amália torna-se um símbolo. “Símbolos, valores como magma do que seria Portugal. Amália derrubou vários estereótipos, por exemplo na forma como se veste e maquilha”, lembra Bárbara.
E ainda as camisolas poveiras de Póvoa de Varzim, as tapeçarias de Portalegre, as rendas de bilros de Peniche e Vila do Conde, os tapetes de Arraiolos. Uma abundância de pontos de água, que dão de beber à cultura portuguesa.
Há no saber-fazer também uma urgência, que Bárbara descreve de forma límpida. A de uma estratégia coesa de “preservação, profissionalização e dignificação do saber-fazer. Se não, perdemos capital humano irrepetível, que se traduz numa perda humana e económica.”
Se o saber-fazer saiu dos seus quartos à lareira para o mundo, vale a pena encontrar no mundo formas de proteger esses rituais, técnicas e matérias, e toda a economia local que em torno deles se enlaça.
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Pequenas perguntas para rematar
Biba Boutique: Onde podemos procurar a moda e o design em Portugal fora da cidade?
Bárbara Coutinho: Saber, ou re-aprender a, olhar o que está à nossa volta. O nosso bairro, a nossa rua, o que temos em casa. Visitar o museu da minha terra, olhar os lugares onde me sento no café. Pensar: adequa-se, é confortável, serve-me? Como é a sua forma, função, estética?
BB: Qual foi a curiosidade que mais gostou de descobrir ao criar esta exposição?
BC: Ao perguntar aos designers desta exposição se a cultura portuguesa os influencia, muitos aperceberam-se nesse momento que sim. Surpreendeu-me o ecleticismo das propostas. Representam um pedaço da riqueza de Portugal na exposição.
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Recomendações e leituras
Portugal Pop. Moda em Português. 1970 – 2020: exposição no MUDE, em Lisboa. Também em versão livro, aqui.
Meu Nome António. Fotografia de Teresa Couto Pinto. 1981– 1983: exposição no MUDE, com fotografias, peças de vestuário e acessórios de António Variações. De 4 dezembro 2025 a 26 abril 2026.
Vanessa Barragão: exposição no Centro Comercial Colombo, em Lisboa. Mais peças, aqui.
Helena Cardoso: livro sobre o seu trabalho, com embrulho em serapilheira, aqui.
O programa nacional Saber Fazer, um atlas da produção artesanal em Portugal, com rotas para conhecer.
Livro The Hard Life, de Jasper Morrison, em colaboração com o Museu de Etnologia. Explora-se a riqueza de soluções equilibradas, económicas e sustentáveis.
Os quadros de Sonia Delaunay, que retratam a cor das paisagens e mercados Viana do Castelo.
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Agradecimentos
Bárbara Coutinho (MUDE), pelo tempo, conhecimento, e saber-fazer partilhados numa conversa enriquecedora, onde foi uma delícia falar de design, moda, e cultura vernacular portuguesa.
Cristina Matos e Ana Gomes (MUDE), pela gentil organização e acolhimento.
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