Como a moda é feita nos ateliers do Teatro Nacional D. Maria II. Com a Mestra de Guarda-Roupa, Aldina Jesus.
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Tecidos no Teatro
“Corte em viés ou a direito?” - pergunta João, sobre uma gola para o próximo espetáculo do Teatro Nacional D. Maria II, “O Nariz de Cleópatra, pois claro!”. Na salinha ao lado, Sílvia, artesã que também faz crochê, restaura umas patas de um figurino-cão, para a peça “Cabe mais um?”. No atelier, cada espacinho é para sua coisa, e percorre-se pela mesma ordem da criação de uma peça de roupa. Vamos do corte do tecido, depois para a modelação e, por fim, a confecção. Mas um figurino – ou seja, a roupa feita especialmente para personagens – vive muitas vidas.

“Antigamente, ser costureira era um ofício. Havia menos recursos, cosia-se tudo à mão. Hoje, a maioria dos artesãos e figurinistas de ateliers de teatros começam por trabalhar no mundo da moda. Poucos teatros têm ateliers próprios, e os que contam com saber-fazer caseiro têm, apenas, uma pessoa nessa equipa. Antigamente, um guarda-roupa era feito em seis meses. Agora, temos cerca de apenas um mês para cada espetáculo.”
Aldina Jesus, a Mestra de Guarda-Roupa do Teatro Nacional D. Maria II, leva cada um desses meses com carinho. Por entre adaptações, restauros e criações, o atelier e a imaginação que o sustenta está nas suas mãos. “Se não adaptássemos as peças, seriam sempre as mesmas, ou sempre na ótica do mesmo figurinista. Precisamos de linhas diferentes, cortes diferentes, tecidos diferentes”. Com inovação, transformando o que se tem, dá-se a cada espetáculo um espírito que o caracteriza, também, através do guarda-roupa.

O percurso da Aldina parece, também ele, um atelier – primeiro, passou pela modelagem, depois pelo corte, e mais tarde pela confecção. “Descobri aí o que mais gostava. Queria mesmo fazer protótipos, melhorá-los, e usá-los como base para outros modelos.”
Depois, em 2015, entrou o palco. Colaborou com estilistas em projetos teatrais, e a sua curiosidade histórica encontrou um novo oxigénio na criação de guarda-roupa. “A sensação de recriar roupa de época, para reviver aquele ambiente, o que faziam naquela altura, para respirar e viver aquele tempo.” Um dos primeiros projetos foi para a peça “Amadeus”, com os Storytailors. “Até me sinto a arrepiar.”, e conta-me, com um detalhe que se reserva às memórias felizes. “Fui ao Museu do Traje, mexer na roupa, ver todos os detalhes de perto. As ceroulas, os elásticos, as anquinhas. As anquinhas eram estruturadas com barbas de ferro, para poder aguentar o peso das saias. Tinham rasgos, tipo bolsos, que coincidiam com os da saia que depois se sobrepunha, para guardar perfumes, leques e pó de arroz. Os corpetes tinham um bolso, também para as cartas e perfumes. Recriámos os casacos masculinos com os bolsos tal e qual como eram, para guardar a espada ou a arma, e acrescentámos fitas com pregas.” A anquinha foi o objeto de maior fascínio. Era parte de todo um sistema de camadas. Primeiro, o calção com folhos e renda, tipo ceroula, e os collants. Depois, vestia-se a anquinha, com o seu enorme bolso interior e exoesqueleto bem estruturado. Por fim, a saia, também ela com o seu rasgo para que se pudesse aceder ao bolso da anquinha.

Além de importante, é também enternecedor este gosto por estudar e recriar os esconderijos de cada peça, e como cada um lembra “aquela sedução da época”. Nesta precisão, encontramos o “ambiente de antigamente” - porque as histórias existem também na moda, e como nos revela as formas de agir, interagir, e criar laços de outras sociedades, noutros tempos.

Para o “Frei Luís de Sousa”, trabalhou com José António Tenente na criação dos figurinos, também com muitos pormenores da época.” Para além da arquitetura das peças, a escolha dos tecidos também é um processo ponderado e enriquecedor da cena. “Por exemplo, usar tecidos contemporâneos não funcionaria neste contexto. Mas se forem utilizados, fazem-se aplicações mais de época - linho com rendas, franzidos em pétala ou folha, ou outros detalhes que remetam a esse tempo. A história da moda também se reflete em palco, e uma interpretação descontextualizada poderia ser incompreendida, ser quase uma gaffe.” E a história da moda continua a refletir-se nas escolhas feitas para cada personagem. “Um tecido demasiado rico ou pobre” também destoa se não for apropriado ao contexto de cada personagem.

Para cada personagem, faz-se uma espécie de Frankenstein de referências, composto por figurinistas. Aldina mostra-me um dossier onde se juntam todas estas pecinhas – pinturas da Revolução Francesa, onde se realça um calção às riscas verdes e vermelhas, fotografias editoriais, recortes de coleções de moda, cortes de tecido de cetim duchese e outro crepe.
Neste processo de criação, surgiu um outro pensamento e forma de imaginar – como se separa, ou como se mistura, “uma Moda Lisboa versus um “Amadeus”. É importante saber o que é um desfile e o que é um show”.
“Criar para o teatro envolve prevenir erros – fazer o corte de outra forma, reforçar os forros, ou escolher tecidos mais resistentes.” O palco, no seu rodopiar de entra-e-sai, pede também funcionalidade. Saber transformar a roupa do dia-a-dia numa roupa performativa, não só no seu desenho, mas também na forma como é utilizado e contextualizado em cada espetáculo. Por vezes, essa transformação acontece noutra direção também – quando um figurino, por ser icónico em si ou marcante por quem a usou, ou nela interpretou, se torna numa peça de dia-a-dia.

Na peça “O Nariz de Cleópatra, pois claro!”, os atores vestem-se às escuras – e os escudos que vestem pedem, assim, abotoamentos fáceis. Pode ser necessário proporcionar melhorias às auxiliares de camarim para que tudo funcione neste contexto. “O velcro é fácil, mas poderá fazer muito barulho se coincidir com um silêncio na peça. São muitas mudanças e muito rápidas, por isso, podem ser necessárias algumas soluções - por exemplo, botões falsos, com velcro, para ser fácil de vestir, ou colocar logo duas camadas para ser agilizar a mudança de roupa.”

E junta-se assim um outro fator diferenciador para quem cria guarda-roupa: pede também que se considere as necessidades do ator. “Que movimentos vai fazer? Precisa de ser capaz de fazer o pino ou uma cambalhota ou um salto mortal nestas calças? Então escolhemos um tecido com elasticidade, e reforçamos com um triângulo no entre-pernas para ajudar.” Este é um cuidado partilhado, dinâmico e em fluxo. Por exemplo, as auxiliares de camarim, que assistem ao espetáculo à noite, separam as peças que precisam de ajustes, com indicações num bilhetinho escrito à mão. Algo como “rever o tecido, porque não funciona em palco”, ou “a atriz pisa a cauda do vestido”.
O teatro que se transforma quer no palco, quer fora de cena, no seu imediato, e na sua preparação.
Créditos de foto de capa e do espetáculo "O Nariz de Cleópatra, pois claro!": Filipe Ferreira, TNDMII.
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